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Para segurança de todos nesta fase difícil, há a possibilidade de tele-consultas por WhatsApp, Skype ou Telefone.

Quando é que alguém chega ao ponto de querer tirar a própria vida?

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O comportamento suicida pode ser classificado em três categorias diferentes: ideação suicida (pensar em suicídio), tentativa de suicídio (passar ao acto e tentar suicidar-se) e suicídio consumado (uma tentativa de suicídio que termina em morte). Em termos de gravidade no extremo de menor gravidade situa-se a ideação suicida (que pode ir desde os pensamentos de morte até à intenção suicida estruturada com ou sem planificação suicida) e do outro o suicídio consumado, permanecendo a tentativa de suicídio entre estes dois. Ou seja, um indivíduo pode pensar em suicídio sem o vir a tentar ou consumar. As características dos pensamentos neste âmbito podem ser diversas, por exemplo, uma pessoa pode pensar apenas na morte como solução para os seus problemas ou pode ter já na mente planos para cometer o suicídio. Quando o paciente passa ao acto, tentando o suicídio, pode morrer, falando-se aqui de um suicídio consumado ou, pelo contrário, este pode não resultar em morte.

A morte por suicídio é frequente em Portugal? E no mundo?

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), 800.000 pessoas morrem por suicídio e muitos mais tentam suicidar-se, mas sem sucesso. É a 15.ª causa de morte em todas as idades e a 2.ª causa de morte dos 15-29 anos. Nalguns países em particular estas percentagens são mais alarmantes. Nos Estados Unidos da América (EUA), por exemplo, o suicídio é a 10.ª causa de morte, 44.193 americanos por ano morrem por suicídio e por cada suicídio consumado há 25 tentativas falhadas.[1] As taxas de morte por suicídio em Portugal são consideradas médias/baixas em comparação com os outros países, sendo de 9,6 por 100.000 habitantes.[2] Não deixa de ser curioso que Portugal, sendo dos países com maiores taxas de depressão na Europa e em todo o mundo, seja daqueles com níveis mais inferiores em termos de taxa de suicídio. Faz-nos pensar na resiliência característica do povo português que desde tempos idos tem sofrido grandes provações, mas tem conseguido ir resistindo com seus “brandos costumes”.

Em que circunstâncias a pessoa pensa em matar-se?

De acordo com a Associação Americana de Suicidologia, a depressão está presente em pelo menos 50% dos casos de suicídio e o risco de ocorrer suicídio numa pessoa com depressão é 25 vezes superior ao da população em geral.[3] Portanto, quando alguém pondera ou tenta o suicídio está em grande parte dos casos a sofrer de uma depressão muito grave, que se for tratada para esta condição psiquiátrica pode libertar-se destas intenções. Digo, sem dúvidas, que muitos dos suicídios poderiam ser evitados se as pessoas fossem atempadamente ao psiquiatra. Por outro lado, tenho a certeza absoluta que em determinadas situações que me passaram pelas mãos se eu não tivesse tido uma atuação terapêutica imediata, e que em grande parte dos casos inclui medicação e psicoterapia, os pacientes sairiam do meu consultório para tentar o suicídio, e muitos morreriam. Portanto, tratar uma depressão pode significar salvar uma vida.

Podemos saber de acordo com a forma que o indivíduo pensa sobre a morte se ele vai realmente tentar matar-se?

Não existe uma fórmula mágica que nos permita adivinhar com certeza se uma pessoa que pensa em suicídio se vai realmente tentar matar ou não. No entanto, há algumas questões que temos de investigar e que nos podem ajudar a calcular a probabilidade da tentativa de suicídio realmente acontecer.

É importante sabermos em que contexto é que surgem estas ideias. A pessoa está realmente deprimida ou pensa na morte no âmbito de uma reflexão existencial? Existiu um acontecimento real recente que tivesse desencadeado um período de maior agravamento da depressão (morte de um ente querido, ruptura amorosa, etc.)? A pessoa pensa persistentemente na morte ou é algo muito esporádico? O paciente tem acesso a possíveis métodos/instrumentos para cometer o suicídio (por exemplo, tem acesso a armas de fogo ou armas brancas)? O paciente é impulsivo, tem dificuldade em controlar-se nos momentos de maior angústia…? Não há nada que prenda a pessoa à vida (família, religião, etc.)?

É importante também que pesquisemos outros aspectos. Está provado que o suicídio consumado ocorre com mais frequência em homens, com mais de 45 anos, que vivem em solidão (separados, viúvos, sem amigos), e que frequentemente estão desempregados ou têm doenças crónicas limitantes. Estes são todos factores que aumentam a probabilidade da pessoa pôr termo à sua vida. Não significando que esta situação não possa ocorrer em pessoas de outro tipo de perfil.

A pessoa que tenta suicidar-se quer sempre morrer?

O objectivo que leva à tentativa de suicídio nem sempre é realmente querer morrer, por incrível que pareça. Nestes casos fala-se no «para-suicídio». Aqui, é mais frequente o «querer descansar», «querer fazer ver que fui abandonado/a», «vais-te arrepender». Muitas vezes há uma tentativa de manipulação do ambiente. Frequentemente ouvimos falar de pessoas que “tomam vários comprimidos” à frente dos parceiros de forma a que eles vejam e mudem as suas atitudes.

Então, perante alguém que aparentemente tentou matar-se, como podemos saber se a motivação era morrer ou era chamar a atenção?

Muitas vezes não é fácil, mas há alguns aspectos que apontam para essa situação.

Se o método que a pessoa utilizou for mais letal (uso de armas, enforcamento) é mais provável que se trate de uma verdadeira tentativa de suicídio, a pessoa queria realmente morrer. Da mesma forma, se a pessoa comete o acto isolada (sem ninguém estar a ver) e efetuar atos preparativos (como, por exemplo, escrever uma carta de despedida, fazer um testamento, começar a juntar comprimidos, comprar munições para o revólver, etc.) existe uma maior probabilidade da pessoa procurar verdadeiramente a morte.

Depois em termos de características pessoais, sabe-se que ao contrário das tentativas de suicídio cujo objectivo é realmente morrer, os actos de para-suicídio em que existe uma componente mais apelativa (de transmitir uma mensagem) do que realmente a vontade de morrer, são mais frequentes em mulheres e em jovens.

O que fazer se temos alguém perto de nós que quer pôr termo à vida?

Quase sempre o suicídio surge em contexto de doença mental prévia. Os pensamentos sobre o suicídio podem surgir em ⅔ dos casos de depressão e o suicídio pode ocorrer em 15%.

Por outro lado quando a depressão é tratada, as pessoas geralmente melhoram, conseguem ver o mundo e a sua vida com outros olhos, mais realistas e mais esperançosos, por isso deixam de ser assoladas pelas ideias de suicídio, arrependendo-se muitas vezes de as ter tido e das tentativas que possam ter ocorrido no passado.

Assim, é essencial que recomendemos a estas pessoas que recorram aos profissionais de saúde mais especializados para tratar as situações de doença mental moderada a grave: os médicos Psiquiatras. Estes profissionais instituirão tratamento que pode passar por medicação (que hoje é muito bem tolerada e pode salvar vidas!), e a psicoterapia.

https://www.simplyflow.pt/quando-e-que-alguem-chega-ao-ponto-de-querer-tirar-a-propria-vida/

Entrevista revista Domingo, Correio da Manhã

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Entrevista

Psiquiatra Diogo Telles Correia

Em março deste ano disse numa entrevista que “Perdemos o controlo da situação e a sociedade, que era ansiosa, é uma sociedade em pânico.” De que forma a pandemia provocada pela Covid-19 amplificou as perturbações de ansiedade?

 

A ansiedade como todas as perturbações mentais, desenvolve-se por um culminar de dois tipos de factores os externos a nós (do ambiente) e os internos (genética, por exemplo). Portanto significa que perante determinados estimulos do ambiente adversos se nós temos uma predisponência para desenvolver uma perturbação psiquiátrica, acabamos por desenvolvê-la.

A ansiedade é uma perturbação que se desenvolve muito em reação aos estimulos que estão presentes no dia a dia de hoje: aceleração do mundo e das pessoas, hiperexposição a informação que chega a nós através dos mais variados meios (televisão, telemóvel, etc), exigências laborais, procura incessante de um maior nível de riqueza e conforto material…. Enfim estes estimulos vão acelerar o nosso modo de viver de pensar…. de uma forma que facilmente leva a estados de ansiedade (mais frequentemente em pessoas que já tenham uma predisposição genética para tal).

Em tempos de covid o medo, que é um dos motores da ansiedade, multiplicou-se na nossa sociedade. O medo constante de ficar doente, de morrer, mas mais grave que isso… o medo do outro (!), que representa a ameaça, é o outro que nos trás a doença, o nosso próximo… de quem dependemos (porque nós somos seres sociais que apenas existimos em convivência com o outro).  Nada mais aterrorizante que ter medo dos nossos amigos, dos nossos familiares….

Por outro lado este medo de ser contaminado, estende-se também ao  medo de contaminar os outros, os nossos próximos mais frágeis, os pais os avós…

Todo este medo de contaminar e ser contaminado leva ao isolamento. E o homem isolado é um homem que se entristece, que deprime, o que vem também aumentar a ansiedade porque a tristeza e a ansiedade retroalimentam-se.

 

Nesta fase que o mundo atravessa até os ‘não ansiosos’ podem estar ou vir a sofrer de alguma perturbação de ansiedade?

Como referi para desenvolver uma perturbação de ansiedade, assim como qualquer outra perturbação psiquiátrica, temos de ter em conta os factores individuais de cada um, os genes que herdamos dos nossos pais, e também aquilo que vamos apreendendo ao longo da nossa infância e vida anterior, que sendo traumático, também pode aumentar a nossa predisposição a desenvolver uma perturbação mental. Por exemplo, uma pessoa que tenha pais ansiosos, avós ansiosos, tem provavelmente uma maior tendência genética para desenvolver ansiedade. Uma pessoa que ao longo da sua infância tenha sofrido de “bullying

(que infelizmente ainda é muito frequente nas nossas escolas), pode também ter incorporado no seu sistema nervoso uma maior predisposição a desenvolver depressão e ansiedade no futuro.

Mas geralmente as pessoas desenvolvem ansiedade ou depressão ou outra perturbação psiquiátrica quando há factores do ambiente que embatem nesta predisposição, nesta tendência individual. Assim quanto maior for o peso dos factores do ambiente menos tem de ser o peso dos factores individuais.

Ou seja neste momento, em que os factores já existentes que referimos como a aceleração do mundo, a hiperestimulação, se adicionaram ao medo gigantesco e à tendência para o isolamento resultantes da pandemia actual, os factores ambientais são tão importantes que não é preciso ter grande predisposição individual…. Pessoas com menos tendência individual para a ansiedade e depressão (que não têm familiares com ansiedade, que não têm questões traumáticas no passado) podem também facilmente perecer…

 

 

 

 

 

A sociedade está, de uma forma transversal, a tentar regressar à normalidade possível e seis meses depois as escolas voltam a abrir. Mais do que o medo da morte é o medo do desconhecido que provoca ansiedade nas pessoas neste caso em concreto do novo coronavírus?

Sim. Pior do que o medo da morte é o medo do desconhecido. Um medo sem rosto. Isto é exactamente o que caracteriza a ansiedade. Um medo sem rosto, o medo do medo.

É das emoções mais aflitivas que existem e que facilmente desembocam em estados de ansiedade graves.

Em tempos de COVID, há um medo de uma doença que não se conhece, cujos efeitos não se compreendem, que mata mais idosos e pessoas vulneráveis, mas que também por vezes mata jovens saudáveis, cujas formas de transmissão não são ainda completamente conhecidas….

 

Como se lida com a incerteza? Com a espera? No caso por uma vacina que ninguém sabe quando virá…

A unica forma de lidar com a incerteza é permitir que existem coisas neste mundo e universo que nós não controlamos.

Estamos habituados a viver num mundo moderno, onde o homem se julga capaz de controlar tudo. Tudo se pode controlar . Temos meios ultra desenvolvidos de visualizar as doenças no corpo, meios ultra desenvolvidos para controlá-las….

Formas de atrasar a morte, de controlar os factores que podem conduzir a uma morte precoce…

Mas situações como esta vêm mostrar a pequenez do homem…. E que o homem moderno também se tem de habituar que há muita coisa no universo que ele não domina e que tem de aceitar.

Aprender a viver com a incerteza é guardá-la na gaveta… e aceitar que não dominamos o mundo.

 

Que estratégias podemos usar para combater a ansiedade tendo em contas as diferentes perturbações de ansiedade que existem?

A ansiedade pode manifestar-se de formas diversas.

Em termos de gravidade pode ter níveis ligeiros que com exercícios de relaxamento e algumas técnicas comportamentais (que ensinamos no meu ultimo livro “Guia prático para vencer a ansiedade”), bem como o exercício regular, podem ser suficientes.

No entanto quando atinge níveis mais elevados em que o nosso dia a dia é perturbado, deixamos de funcionar social e profissionalmente, e em que o sofrimento atinge níveis importantes, aí temos de consultar um especialista.

O médico psiquiatra é quem faz o diagnóstico, quem identifica o problema e as formas de o tratar. Muitas vezes, uma vez que a ansiedade tem manifestações que são físicas (sensação do coração a bater mais rápido, alterações gastro-intestinais, tremores, dores de cabeça, etc), é fundamental que seja um médico a fazer o diagnóstico. O tratamento poderá passar por medicação (há medicação muito eficaz hoje em dia e com muito poucos efeitos secundários) e por psicoterapia. A psicoterapia poderá ser orientada pelo médico psiquiatra ou por um psicologo com formação especifica em psicoterapia.

Há várias formas de apresentação da ansiedade. Pode apresentar-se sob a forma de ansiedade generalizada por exemplo (medo constante, sintomas físicos de ansiedade permanentes), perturbação de pânico (ansiedade que surge de forma abrupta e intensa por minutos), perturbação obsessiva compulsiva (caracterizada pela presença de obsessões, pensamentos intrusivos dos quais não nos conseguimos livrar), etc. Para cada tipo de ansiedade o médico psiquiatra consegue prescrever um tratamento que mostrou ser útil para esse caso especifico.

 

Há exercícios que se podem fazer para viver com mais qualidade de vida e contornar os momentos em que a vida parece um túnel sem saída?

No meu ultimo livro “Guia prático para vencer a ansiedade”, são explorados alguns exercícios que se relacionam com a hierarquização dos problemas por exemplo (tentar identificar quais os problemas com que nos preocupamos, distinguir aqueles que podemos controlar e os que não podemos e arranjar estratégias para resolver os que controlamos); com o desafiar os pensamentos negativos (identificar os pensamentos disfuncionais e confrontá-los com outros mais racionais e saudáceis), etc. Os exercícios de relaxamento que também ensinamos no livro e o exercício físico também são  armas importantes contra a ansiedade.

 

Hoje é mais fácil combater a ansiedade do que há 20 anos?

Hoje, como em todas as áreas científicas, temos mais conhecimento na psiquiatria. Esta embora seja uma área mais complexa do que o resto da medicina, desenvolveu-se muito. E através de estudos encontrámos estratégias que envolvem medicação e/ ou psicoterapia e que se mostraram muito eficazes no tratamento das perturbações de ansiedade.

É fundamental recorrermos a técnicos com boa formação e que usem técnicas que comprovadamente mostraram ser eficazes .

 

 

De que forma a ansiedade, de uma forma geral, afeta a relação do indivíduo ansioso com as pessoas que lhe são próximas e com o meio que o envolve?

Não é fácil viver com uma pessoa ansiosa. No livro “Guia prático para vencer a ansiedade”, temos um capítulo que se dedica aos familiares e amigos de pessoas com ansiedade.

A ansiedade é contagiosa. Se temos um familiar com ansiedade infelizmente podemos aprender com ele a ficar ansiosos…

Por isso além de o termos de ajudar (orientando o para um bom técnico, e aconselhando que leia livros escritos por médicos ou psicólogos da área e com boa experiência), temos de nos defender.

 

É possível combater/gerir a ansiedade sem medicação? O desporto, a alimentação, … podem ajudar a lidar com esta doença que afeta tantos portugueses?

Como referido, em fases precoces e com níveis mais leves de ansiedade é possível recorrer a alguns exercícios (presentes em livros escritos por técnicos credenciados, tomar atenção com alguns livros de autoajuda escritos por pessoas sem formação na área!, que são muito apelativos mas podem “desajudar”) e o exercício físico regular podem prevenir o desenvolvimento de situações mais graves.

 

O que explica que haja uma prevalência tão grande de ansiedade nas sociedades modernas? O que despoleta esta patologia?

Expliquei na resposta à primeira pergunta.

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