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Entrevista revista Domingo, Correio da Manhã

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Entrevista

Psiquiatra Diogo Telles Correia

Em março deste ano disse numa entrevista que “Perdemos o controlo da situação e a sociedade, que era ansiosa, é uma sociedade em pânico.” De que forma a pandemia provocada pela Covid-19 amplificou as perturbações de ansiedade?

 

A ansiedade como todas as perturbações mentais, desenvolve-se por um culminar de dois tipos de factores os externos a nós (do ambiente) e os internos (genética, por exemplo). Portanto significa que perante determinados estimulos do ambiente adversos se nós temos uma predisponência para desenvolver uma perturbação psiquiátrica, acabamos por desenvolvê-la.

A ansiedade é uma perturbação que se desenvolve muito em reação aos estimulos que estão presentes no dia a dia de hoje: aceleração do mundo e das pessoas, hiperexposição a informação que chega a nós através dos mais variados meios (televisão, telemóvel, etc), exigências laborais, procura incessante de um maior nível de riqueza e conforto material…. Enfim estes estimulos vão acelerar o nosso modo de viver de pensar…. de uma forma que facilmente leva a estados de ansiedade (mais frequentemente em pessoas que já tenham uma predisposição genética para tal).

Em tempos de covid o medo, que é um dos motores da ansiedade, multiplicou-se na nossa sociedade. O medo constante de ficar doente, de morrer, mas mais grave que isso… o medo do outro (!), que representa a ameaça, é o outro que nos trás a doença, o nosso próximo… de quem dependemos (porque nós somos seres sociais que apenas existimos em convivência com o outro).  Nada mais aterrorizante que ter medo dos nossos amigos, dos nossos familiares….

Por outro lado este medo de ser contaminado, estende-se também ao  medo de contaminar os outros, os nossos próximos mais frágeis, os pais os avós…

Todo este medo de contaminar e ser contaminado leva ao isolamento. E o homem isolado é um homem que se entristece, que deprime, o que vem também aumentar a ansiedade porque a tristeza e a ansiedade retroalimentam-se.

 

Nesta fase que o mundo atravessa até os ‘não ansiosos’ podem estar ou vir a sofrer de alguma perturbação de ansiedade?

Como referi para desenvolver uma perturbação de ansiedade, assim como qualquer outra perturbação psiquiátrica, temos de ter em conta os factores individuais de cada um, os genes que herdamos dos nossos pais, e também aquilo que vamos apreendendo ao longo da nossa infância e vida anterior, que sendo traumático, também pode aumentar a nossa predisposição a desenvolver uma perturbação mental. Por exemplo, uma pessoa que tenha pais ansiosos, avós ansiosos, tem provavelmente uma maior tendência genética para desenvolver ansiedade. Uma pessoa que ao longo da sua infância tenha sofrido de “bullying

(que infelizmente ainda é muito frequente nas nossas escolas), pode também ter incorporado no seu sistema nervoso uma maior predisposição a desenvolver depressão e ansiedade no futuro.

Mas geralmente as pessoas desenvolvem ansiedade ou depressão ou outra perturbação psiquiátrica quando há factores do ambiente que embatem nesta predisposição, nesta tendência individual. Assim quanto maior for o peso dos factores do ambiente menos tem de ser o peso dos factores individuais.

Ou seja neste momento, em que os factores já existentes que referimos como a aceleração do mundo, a hiperestimulação, se adicionaram ao medo gigantesco e à tendência para o isolamento resultantes da pandemia actual, os factores ambientais são tão importantes que não é preciso ter grande predisposição individual…. Pessoas com menos tendência individual para a ansiedade e depressão (que não têm familiares com ansiedade, que não têm questões traumáticas no passado) podem também facilmente perecer…

 

 

 

 

 

A sociedade está, de uma forma transversal, a tentar regressar à normalidade possível e seis meses depois as escolas voltam a abrir. Mais do que o medo da morte é o medo do desconhecido que provoca ansiedade nas pessoas neste caso em concreto do novo coronavírus?

Sim. Pior do que o medo da morte é o medo do desconhecido. Um medo sem rosto. Isto é exactamente o que caracteriza a ansiedade. Um medo sem rosto, o medo do medo.

É das emoções mais aflitivas que existem e que facilmente desembocam em estados de ansiedade graves.

Em tempos de COVID, há um medo de uma doença que não se conhece, cujos efeitos não se compreendem, que mata mais idosos e pessoas vulneráveis, mas que também por vezes mata jovens saudáveis, cujas formas de transmissão não são ainda completamente conhecidas….

 

Como se lida com a incerteza? Com a espera? No caso por uma vacina que ninguém sabe quando virá…

A unica forma de lidar com a incerteza é permitir que existem coisas neste mundo e universo que nós não controlamos.

Estamos habituados a viver num mundo moderno, onde o homem se julga capaz de controlar tudo. Tudo se pode controlar . Temos meios ultra desenvolvidos de visualizar as doenças no corpo, meios ultra desenvolvidos para controlá-las….

Formas de atrasar a morte, de controlar os factores que podem conduzir a uma morte precoce…

Mas situações como esta vêm mostrar a pequenez do homem…. E que o homem moderno também se tem de habituar que há muita coisa no universo que ele não domina e que tem de aceitar.

Aprender a viver com a incerteza é guardá-la na gaveta… e aceitar que não dominamos o mundo.

 

Que estratégias podemos usar para combater a ansiedade tendo em contas as diferentes perturbações de ansiedade que existem?

A ansiedade pode manifestar-se de formas diversas.

Em termos de gravidade pode ter níveis ligeiros que com exercícios de relaxamento e algumas técnicas comportamentais (que ensinamos no meu ultimo livro “Guia prático para vencer a ansiedade”), bem como o exercício regular, podem ser suficientes.

No entanto quando atinge níveis mais elevados em que o nosso dia a dia é perturbado, deixamos de funcionar social e profissionalmente, e em que o sofrimento atinge níveis importantes, aí temos de consultar um especialista.

O médico psiquiatra é quem faz o diagnóstico, quem identifica o problema e as formas de o tratar. Muitas vezes, uma vez que a ansiedade tem manifestações que são físicas (sensação do coração a bater mais rápido, alterações gastro-intestinais, tremores, dores de cabeça, etc), é fundamental que seja um médico a fazer o diagnóstico. O tratamento poderá passar por medicação (há medicação muito eficaz hoje em dia e com muito poucos efeitos secundários) e por psicoterapia. A psicoterapia poderá ser orientada pelo médico psiquiatra ou por um psicologo com formação especifica em psicoterapia.

Há várias formas de apresentação da ansiedade. Pode apresentar-se sob a forma de ansiedade generalizada por exemplo (medo constante, sintomas físicos de ansiedade permanentes), perturbação de pânico (ansiedade que surge de forma abrupta e intensa por minutos), perturbação obsessiva compulsiva (caracterizada pela presença de obsessões, pensamentos intrusivos dos quais não nos conseguimos livrar), etc. Para cada tipo de ansiedade o médico psiquiatra consegue prescrever um tratamento que mostrou ser útil para esse caso especifico.

 

Há exercícios que se podem fazer para viver com mais qualidade de vida e contornar os momentos em que a vida parece um túnel sem saída?

No meu ultimo livro “Guia prático para vencer a ansiedade”, são explorados alguns exercícios que se relacionam com a hierarquização dos problemas por exemplo (tentar identificar quais os problemas com que nos preocupamos, distinguir aqueles que podemos controlar e os que não podemos e arranjar estratégias para resolver os que controlamos); com o desafiar os pensamentos negativos (identificar os pensamentos disfuncionais e confrontá-los com outros mais racionais e saudáceis), etc. Os exercícios de relaxamento que também ensinamos no livro e o exercício físico também são  armas importantes contra a ansiedade.

 

Hoje é mais fácil combater a ansiedade do que há 20 anos?

Hoje, como em todas as áreas científicas, temos mais conhecimento na psiquiatria. Esta embora seja uma área mais complexa do que o resto da medicina, desenvolveu-se muito. E através de estudos encontrámos estratégias que envolvem medicação e/ ou psicoterapia e que se mostraram muito eficazes no tratamento das perturbações de ansiedade.

É fundamental recorrermos a técnicos com boa formação e que usem técnicas que comprovadamente mostraram ser eficazes .

 

 

De que forma a ansiedade, de uma forma geral, afeta a relação do indivíduo ansioso com as pessoas que lhe são próximas e com o meio que o envolve?

Não é fácil viver com uma pessoa ansiosa. No livro “Guia prático para vencer a ansiedade”, temos um capítulo que se dedica aos familiares e amigos de pessoas com ansiedade.

A ansiedade é contagiosa. Se temos um familiar com ansiedade infelizmente podemos aprender com ele a ficar ansiosos…

Por isso além de o termos de ajudar (orientando o para um bom técnico, e aconselhando que leia livros escritos por médicos ou psicólogos da área e com boa experiência), temos de nos defender.

 

É possível combater/gerir a ansiedade sem medicação? O desporto, a alimentação, … podem ajudar a lidar com esta doença que afeta tantos portugueses?

Como referido, em fases precoces e com níveis mais leves de ansiedade é possível recorrer a alguns exercícios (presentes em livros escritos por técnicos credenciados, tomar atenção com alguns livros de autoajuda escritos por pessoas sem formação na área!, que são muito apelativos mas podem “desajudar”) e o exercício físico regular podem prevenir o desenvolvimento de situações mais graves.

 

O que explica que haja uma prevalência tão grande de ansiedade nas sociedades modernas? O que despoleta esta patologia?

Expliquei na resposta à primeira pergunta.

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